Em terra de lobos


Escrito por Hugo Rocha | Postado em Renovadamente

lobo-ovelha

Hoje acordei pensando no poder das máscaras. E no papel que elas exercem na sociedade contemporânea. Cheguei à conclusão que é absurdamente difícil viver sem fazer uso delas. Mostrar a verdadeira face não é costume nem tarefa agradável. E infelizmente isso também é regra no meio dito “cristão”.

Ontem fiz um desabafo no meu twitter. Disse que “quando saio de casa para ir a algum lugar encontrar um amigo minha motivação é sempre o encontro, nunca o local. Então meus amigos só devem me chamar pra sair se a motivação também for o encontro. Caso contrário, prefiro nem ser lembrado”. A tag usada foi #de-cisão. Cisão. Rompimento. Separação. Sim, decidi me livrar de mais um fardo.

É triste ver nas pessoas que se dizem amigas a falta de motivação para o encontro humano. É inegável nos evangelhos que Jesus se motivava pelo humano. Ele não ia à sinagoga pela sinagoga, mas por causa das pessoas que estariam lá. Para discutir com elas, ensiná-las e – o mais importante – manifestar seu Amor. Cristo não tinha imagem pública a preservar. Ia a festas, onde o humano se encontrava em suas mais diversas faces: bêbados, prostitutas, mentirosos, idólatras. Misturava-se. Dissolvia-se na escuridão a fim de ser Luz onde essa é necessária. Ninguém precisa de uma lâmpada enquanto há sol.

Veja bem: o encontro humano O motivava. Ele não fazia shows quando as multidões o seguiam. Apenas demonstrava o Amor do Pai. Hoje, no meio “cristão”, o lugar central que antes era ocupado pelo próximo foi transferido para as plataformas. Ministros, líderes, moveres, unções. E o outro? Se ele estiver à minha frente, impedindo-me de ver quem segura o microfone no palco, adoto a tática dos empurrões e pontapés. Simples! Ele – o ser-humano – não importa. O foco é o animador de auditório. Aquele que fará a massa gritar, pular, sorrir, chorar. Sobra emoção. Falta razão. Não há espaço para o Amor.

O medo do que o outro vai pensar das nossas falas e atitudes tem mais poder do que o que Jesus ensinou. Principalmente se, na “igreja”, esse outro for hierarquicamente superior. Contraditório isso, já que Jesus nos orientou o caminho da humilhação. A ação de ocupar os últimos lugares. Mesmo que seja na noção de respeito que o outro nutre por nós.

Ser de Cristo implica em ser considerado por muitos como anti-Cristo. Amar como Jesus ensinou significa ser mal visto. Desfazer-se das máscaras e mostrar o rosto verdadeiro exige disposição para ceder a outra face quando a primeira for atacada. Motivar-se no encontro com o humano – e não no encontro com a plataforma onde os “espirituais” se estabelecem – muitas vezes é visto como o maior erro.

Na inversão de valores proposta frequentemente no meio cristão, o Amor pode ser visto como um dos maiores pecados. É arriscado. É difícil. E machuca. É necessário ter disposição para a sensação de solidão que nos visita nos mais diversos pontos da caminhada.  Nadar contra a correnteza exige muito mais fôlego e preparo.

Aos que querem seguir a Cristo – e não ao Cristianismo -, um conselho: acostumem-se desde já com os últimos lugares. Aceitem o desafio de não ter a melhor imagem. Quando os lobos vestem uma fantasia mal-feita de ovelha, o feio se torna maioria. E a pura lã da ovelha passa a ser exceção. Com isso, as ovelhas se tornam “o estranho”. Em terra de lobos travestidos de ovelhas, quem tem lã pura se transforma em lobo.

2 Comentários | Publicado dia 7 de agosto de 2009
  • Ellen Nívea disse:
    25 de dezembro de 2009 às 19:30

    Meu querido você falou tudo em um só tópico!

    Todos os problemas, as fraquezas, as tristezas, enfim todo o mal que se penetra na igreja, começa a partir de toda essa màscara!

    Por se fazerem fortes e “superiores”, muitos sofrem em silêncio e acabam não conseguindo continuar a caminhada…
    Enquanto , alguns outros, se fazem de frágeis para por exemplo : pedir pra “irmãzinha fazer orações por ele”, quando na verdade o que ele quer é orar com e por ela(entende?!)<~ Estes são os “crentes” sabe?! Não são discipulos…não são seguidores… não podem ser considerados A NOIVA DE DEUS!

    Jesus é o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA! Então porque não conseguimos seguir seus passos, viver em verdade e buscar a vida eterna que ele nos proporciona?

    Posso dizer que TODOS erramos, e que muitas vezes me escondo por trás de máscaras…Sei que não é certo…Mas é tão difícil sobreviver nesse mundo do qual não somos filhos e no qual não somos aceitos…É difícil lutar 24 horas contra todo o mal(inveja, intrigas, desejos impuros, raiva, fraqueza, tristeza, paixões,etc.) e não tentar se esconder às vezes.

    Enfim, é uma guerra diária BEM x mal…Mas nós somos LUZ e temos que brilhar! Portanto,

    “SEJAMOS LIVRES DE TODAS AS MÁSCARAS, E COMO DIZ A CANÇÃO DE HELOÍSA ROSA:

    EU QUERO ME ESVAZIAR DA RELIGIOSIDADE, EU QUERO ME ESVAZIAR DE MIM, EU QUERO ME ESVAZIAR DE TODOS OS MEUS TITULOS E DE TUDO QUE ME AFASTA DE TI JESUS!”

    VAMOS NOS ESVAZIAR DE TODA FALSIDADE E DE TODA E QUALQUER MÁSCARA!

    Shallon!!!

  • Kennedy Lucas disse:
    26 de dezembro de 2009 às 17:08

    Obrigado pelo comentário Ellen, muito bonita a letra dessa música.
    Abs!

Deixe seu comentário:





(*)campos obrigatórios.